May 31
postado por rdbandeira, 31 May 2:12 am
Este poema foi dado numa das minhas aulas de semiótica, para que todos lessem e discutissem o que é ser você no mundo de hoje onde tantas marcas existem e nos identificam. Quem somos nós nesse mundo onde a marca vale mais do que você mesmo?
Eu, Etiqueta
Carlos Drummond de Andrade
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome… estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
(…)
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado
(…)
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Corpo. Rio de Janeiro: Record, 1984.)
E deixo a pergunta:
Quem é você? O que realmente te representa?
Fica aberta a discussão.
=)
Categoria(s): reflexão, teoria/design
Oct 08
postado por rdbandeira, 08 Oct 1:52 pm
Artigo publicado pelo iMasters, 03/Outubro/2008 (ver)
No meu primeiro artigo, fiz uma introdução sobre semiótica, tema que gera tanto discussões quanto dúvidas. Como e onde devemos aplicar toda aquela teoria? Nesta segunda parte, falarei mais sobre a aplicação da semiótica no design de interface especificamente.
O design de interface é um campo relativamente novo. Estuda a interação homem x computador (IHC) e as várias interfaces (físicas, sensoriais, psicológicas, entre outras) que os conectam. Nesta dança, entram estudos mais específicos para cada área e uma delas é a semiótica cognitiva, que analisa psicologicamente esta interação. Para não haver dúvidas, cognição refere-se ao processo pelo qual nos tornamos conscientes das coisas ou, então, como adquirimos conhecimento. Nisso, inclui-se capacidade de memória, raciocínio, atenção, habilidades e até criação de novas idéias.
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Categoria(s): teoria/design
Sep 30
postado por rdbandeira, 30 Sep 5:45 pm
Artigo publicado pelo iMasters, 01/Agosto/2008 (ver)
Vou falar um pouco de semiótica, assunto muito interessante e vasto, além de ser de extrema importancia para o ramo do Design. Quem conhece um pouco do assunto, com certeza já ouviu falar de Charles Sanders Peirce. Um dos grandes mestres deste assunto. Existem outros grandes nomes como Charles Morris, Roman Jakobson, Umberto Eco, e mtos outros.
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Categoria(s): teoria/design
May 09
postado por rdbandeira, 09 May 7:15 pm
Ultimamente tenho observado que muitos blogs estão falando sobre semiótica, mas nenhum deles explicou o que realmente é semiótica. Quais os critérios e análises utilizadas e aplicadas pela tal semiótica. É um tema interessantíssimo, vasto e que gera muitas discussões (saudáveis, por favor). Hoje, olhando meus arquivos salvos no google docs, encontrei este texto que foi dado numa aula de semiótica que tive na faculdade no 2º período. Neste texto, vc vai encontrar os conceitos das análises, segundo Peirce. Muito explicativo e para os interessados, vai ser muito útil. O texto, segue abaixo:
A RELAÇÃO DO SIGNO CONSIGO MESMO, segundo C. S. Peirce
É a relação que o signo tem consigo mesmo, no seu modo de ser, no seu aspecto, na maneira como aparece. Desse modo, ele se divide em quali-signo, sin-signo e legi-signo.
1º – QUALI-SIGNO
Se algo aparece como pura qualidade, este algo é primeiro. É claro que uma qualidade não pode aparecer e, portanto, não pode funcionar como signo sem estar encarnada em algum objeto. Ela é apenas um sentimento vago, indiscernível, num nível de primeiridade, aberta a interpretação junto com seu suporte. Seu caráter qualitativo – cores, luminosidade, cheiros, gostos, volumes, texturas, formas etc. – enriquece o objeto impregnado.
2º – SIN-SIGNO
Num segundo nível, o da secundidade, qualquer coisa que se apresente diante de você como existente único, material, aqui e agora, é um sin-signo. Isto porque qualquer existente real e concreto está conectado ao universo do qual ele faz parte, irradiando sentido em outras direções. É o seu caráter físico-existencial que aponta para as outras coisas. Rastros, pegadas, resíduos fazem parte de uma existência concreta. Daí, sin-signo.
3º – LEGI-SIGNO
Ao nível de terceiridade, o caráter do signo aparece quaando, em si mesmo, o signo é de lei. Isto porque, ao ser representado, é portador de uma lei que, por convenção ou pacto coletivo, determina que aquele signo represente seu objeto. Note-se que se é por convenção aquilo que ele representa não é individual, mas geral. Por exemplo, as palavras são caracteres cujos códigos são combinados, mantêm um acordo firmado entre o grupo – uma lei – para que o signo possa significar. Já dizia Peirce: “você pode escrever a palavra “estrela”, mas isto não faz de você o criador da palavra – e mesmo que você a apague, ela não foi destruída. As palavras vivem nas mentes daqueles que as usam. Mesmo que estejam todos dormindo, elas vivem nas suas memórias. Elas são coletivas, não individuais”.
AS DIMENSÕES SEMIÓTICAS SEGUNDO CHARLES MORRIS
Em uma análise posterior, Charles Morris aprofundou e estabeleceu uma classificação entre a relação do receptor do signo com o objeto designado. A análise desse processo apura quatro fatores: o veículo sígnico – aquilo que atua como um signo; o designatum – aquilo a que o signo se refere; o interpretante – o efeito sobre alguém em virtude do qual a coisa em questão é um signo para esse alguém; e o intérprete – o alguém.
Morris também estabeleceu as três dimensões do signo:
1. A DIMENSÃO SINTÁTICA
Os signos formam-se e se agrupam segundo regras, isto é, os signos se organizam, não se amontoam. Esse é o ponto de partida da sintática. O pensamento, caótico por natureza, é forçado a organizar-se para dar sentido aos signos. As partes se juntam em construção, relacionando-se umas às outras, para formar um todo. É do todo organizado, das partes que interagem, que se parte para obter uma análise. A dimensão sintática é a relação dos signos entre si.
Exemplos:
- As palavras que compõem um poema, um texto jornalístico, uma propaganda.
- As notas musicais que se agrupam para formar uma música
- Os elementos visuais de uma fotografia, de um quadro.
- Os tipos de letras de uma propaganda impressa.
- Os fotogramas, as seqüências, os takes de um filme.
2. A DIMENSÃO SEMÂNTICA
É a que considera a relação entre o signo e seus significados. Todos os signos significam, quer dizer, têm um significado. Por natureza e por definição não há signos sem significado, pois que o significado é precisamente aquilo pelo qual está para alguém. Agora, o que é o significado, esse é um dos problemas maiores de toda a semiótica e que constitui o campo da semântica.
O significado de um nome ou signo é apreendido por quem conhece a língua ou o conjunto dos signos em que esse signo se enquadra. Normalmente um signo tem um significado e a esse significado corresponde uma referência. O mesmo significado e a correspondente referência têm em diferentes línguas diferentes expressões.
Os significados estão sujeitos à ação do tempo e da formação cultural do grupo interpretante. É por isso que os significados mudam de grupo para grupo e de tempos em tempos.
3. A DIMENSÃO PRAGMÁTICA
Considera-se a dimensão pragmática a relação entre o signo e seus usuários. É a ação, o movimento de interpretação que é compreendido e incorporado ao sistema global de outros signos. Qualquer estudo semântico ou sintático conduz inexoravelmente à investigação pragmática. Para se fazer uso do signo, há que se fazer sentido.
As regras pragmáticas estabelecem as condições em que algo se torna um signo para os intérpretes. Ou seja, o estabelecimento das condições em que os termos são utilizados por ele em seu processo de pensamento. Daí que qualquer signo produzido e usado por um intérprete pode também servir para obter informações sobre esse intérprete.
Os signos podem ser usados para condicionar comportamentos e ações tanto próprios como alheios.
O que a pragmática vem acrescentar à semiótica é a descrição das regras de uso dos signos. Sintaxe e semântica estudam exclusivamente o sistema, a pragmática estuda o uso dos elementos do sistema. A esta cabe definir as regras do uso dos signos, que são diferentes das regras do sistema. Por exemplo: Não basta que uma frase esteja correta do ponto de vista gramatical, é preciso também que ela se adapte ao contexto para que possa ter o sentido pretendido e possa ser entendida nesse sentido.
Categoria(s): teoria/design
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